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Análise da Música: Artigo 26

Quando:
09/07 - 00:00h   a   09/07 - 00:00h
Local:
Brasil

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Artigo 26 de Ednardo - Crítica Politica ou Antropofagia?

Esse compositor brasileiro quase esquecido, mas que tem canções ótimas, como Artigo 26, embalou muito protesto na década de 1970, seu nome é Ednardo.

Ednardo é um compositor que fez canções importantes na década de 1970. Nascido em Fortaleza, em 1945, tinha letras um tanto herméticas, mas embaladas em músicas alegres a harmonias divertidas. Enquanto Engomo a Calça e Pavão Mysterioso são canções muito emblemáticas, tendo esta última sido o tema de abertura de uma novela da rede Globo, escrita por Dias Gomes, toda trabalhada no realismo fantástico.

Porém, uma das letras que mais gosto é a que transcrevi acima. Chama-se Artigo 26 e diz respeito à antropofagia tropicalista, pois se refere ao artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que trata do direito à educação plena.

Primeira estrofe

“Olha o padeiro entregando o pão
De casa em casa entregando o pão
Menos naquela, aquela, aquela, aquela, aquela não
Pois quem se arrisca a cair no alçapão?
Pois quem se arrisca a cair no alçapão?

Anavantu, anavantu, anarriê
Nê pa dê qua, nê pa dê qua, padê burrê
Igualitê, fraternitê e libertê
Merci bocu, merci bocu
Não há de que

Algumas análises pensam em desigualdade na distribuição de alimentos, mas como essa é uma canção composta em plena ditadura, a mim remete mais o medo das casas de tortura (quem se arrisca a cair no alçapão?)

O refrão é em francês escrito como transliteração. Uma tradução livre seria: Vamos todos, vamos todos para trás. Não há de quê, sem recheio. Igualdade, fraternidade e liberdade, Muito obrigado, não há de quê. Realismo fantástico?

Segunda estrofe

Rua Formosa, moça bela a passear
Palmeira verde e uma lua a pratear
E um olho vivo, vivo, vivo, vivo a procurar
Mais uma ideia pro padeiro amassar
Mais uma ideia pro padeiro amassar

A rua é bonita e temos uma moça passeando por ela à luz do luar, mas há um olho que sempre nos vigia procurando uma ideia para o padeiro amassar. Quem é esse olho? Quem nos vigia o tempo todo?

Terceira estrofe

Você já leu o artigo 26
Ou sabe a história da galinha pedrês
E me traduza aquele roque, roque para o português
A ignorância é indigesta pro freguês
Que a ignorância é indigesta pro freguês

O artigo 26 da Declaração Universal do Direito Humanos trata do direito à educação e me remete a uma crítica contundente à destruição da educação pública, que acontece na reforma educacional de Jarbas Passarinho. Portanto, esse trecho da música expõe a ignorância sobre tudo, da arte ao desenvolvimento brasileiros, pois a invasão de canções estrangeiras, com letras que não conseguíamos decifrar, é indigesta para o freguês.

Quarta estrofe

Você queria mesmo é ser um sanhaçu
Fazendo fiu e voando pelo azul
Mas nesse jogo lhe encaixaram e é uma loucura
Lá vem o padeiro, pão na boca é o que te cura
Lá vem o padeiro, pão na boca é o que te cura

O questionamento existencialista humano, a vontade de se tornar um animal selvagem, especialmente uma ave, que canta e voa livremente. No entanto, continuamos enquadrados e vendo o mundo por meio do sofrimento, desligado da nossa realidade objetiva. Mas, o resgate da alimentação provida pelo onipresente padeiro, aparece para dar um fechamento à essa dialética musical. 

Por isso Ednardo é um dos grandes compositores da MPB e que precisa ser escutado e compreendido pelas novas gerações.

Cristovam Freitas

Cristovam Freitas, brasiliano, sessentão, aficcionado por teatro, literatura e cinema. Morando em Brasília, mas o coração está enterrado no Rio de Janeiro.

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