Exposição e programação de encontros apresentam a produção de cinco artistas em contextos de cuidado em saúde mental, aproximando arte e loucura.
Evandro Câmara, Sol, Vanesa Liberato, Igor Alves e Altair Algudás trazem de diferentes regiões brasileiras, suas maneiras de transformar experiências. Elas se tornam pintura, bordado, palavras e outras linguagens. Premiados entre 430 inscrições de todo o país, os artistas integram a segunda edição de Desalinhos e Costuras – Arte e Loucura, em cartaz no Museu Nacional da República. Com a exposição Delirar a Vida – Refazer o Mundo, sob curadoria de Tânia Rivera, a mostra reúne também rodas de conversa, cineclubes, performances e apresentações artísticas.
A abrangência da chamada nacional evidencia a diversidade de uma produção desenvolvida em contextos de cuidado em saúde mental. Diante desse universo, o desafio curatorial é construir aproximações entre vários aspectos. Isto porque trata de linguagens, territórios e experiências, sem apagar a singularidade de cada trajetória. O encontro dessas obras convida o público a reconhecer seus autores para além dos diagnósticos e a perceber a criação artística como campo de expressão, elaboração e participação na vida cultural.
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Legado de Nise da Silveira
Mais do que apresentar a arte como recurso terapêutico, a mostra reivindica o reconhecimento de uma produção com autoria, pesquisa e força expressiva. Nesta perspectiva, dialoga com o legado de Nise da Silveira, psiquiatra que valorizou a expressão criadora e o respeito à singularidade no cuidado em saúde mental. Ela deu origem ao Museu de Imagens do Inconsciente, localizado no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Este diálogo ajuda a situar a proposta: acolher experiências, sem reduzi-las a sintomas. Além disto, a reconhecer os desdobramentos artísticos e culturais.
No trabalho dos três coletivos organizadores, essa relação ganha formas distintas e complementares. Desde 2011, o Bloco do Riovtrio leva às ruas de Brasília um carnaval comprometido com a convivência a defesa de direitos e a luta antimanicomial. Já a música é o ponto de encontro do Maluco Voador, surgido em 2012, a partir de uma oficina vinculada ao CAPS II do Paranoá. Ela aconteceu em parceria com um ponto de cultura local. Além dela, a Cia Atravessa a Porta, originada ao mesmo tempo e no mesmo lugar, desenvolve trabalhos de teatro, cinema e performance. Em comum, estes coletivos afirmam que o cuidado pode acontecer nas relações, na criação e na presença ativa na cidade.
Reunião de experiências que reverbera a luta antimanicomial
Ao reunir essas experiências, Desalinhos e Costuras reverbera a luta antimanicomial. Ela atravessa os trabalhos do Bloco do Riovotrio, do Maluco Voador e da Cia Atravessa a Porta. Faz isto para promover a defesa do cuidado em liberdade, da dignidade e do direito de participar da vida em sociedade. Em consonância com o legado da grande Nise da Silveira, os coletivos reconhecem na criação artística um caminho de expressão, vínculo e autonomia. Com o fomento do Fundo de Apoio à Cultura do DF, a exposição amplia essa perspectiva ao convidar o público a enxergar, para além dos diagnósticos, pessoas criativas, produtoras de cultura, com suas próprias histórias para contar.
Informações Desalinhos e Costuras – Arte e Loucura, 2ª edição
Local: Museu Nacional da República
Datas: até 8 de novembro
Mais informações: clique aqui




