Espetáculo que transforma fraturas em beleza, utiliza a metáfora da arte japonesa Kintsugi para tratar de memória, política e superação.
O que fazer com os fragmentos do que se quebrou? Como lidar com as memórias que preferíamos esquecer? O LUME Teatro apresenta o espetáculo “Kintsugi, 100 memórias“, no Centro Cultural do Banco do Brasil. A obra, que celebra os 40 anos do grupo paulista, une o pessoal e o político numa dramaturgia autoficcional e fragmentária. Emílio García dirigiu e Pedro Kosovski fez a dramaturgia. O termo que intitula a obra, em japonês, significa “emenda com ouro“. Filosoficamente, representa “a beleza da imperfeição“. A técnica consiste em reparar cerâmicas quebradas com uma mistura de laca e pó de ouro. Isto torna a peça restaurada mais valiosa e resistente do que a original que não sofreu rupturas.
Esta metáfora está no cerne do espetáculo. Logo na primeira ação em cena, os atores fazem um brinde e, em seguida, um vaso de cerâmica é estilhaçado no palco. O evento cobra dos artistas uma tomada de posição: de que modo juntar os fragmentos daquilo que um dia representou um contorno estável e os uniu enquanto grupo durante tantos anos? A partir disto, a peça propõe uma ressignificação positiva da ruptura. Assim como o Kintsugi transforma fraturas em ornamentos dourados, a peça busca iluminar cicatrizes individuais e coletivas: do Brasil da ditadura à redemocratização, passando por memórias pessoais e do próprio grupo. Deste modo, torna-as mais valiosas do que a integridade que nunca se quebrou. Nas palavras do dramaturgo: “A peça propõe uma utopia do mover-se, não estagnar: a vida é movimento. Neste sentido, acontece a restauração do desejo de estarmos juntos na diferença“.
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Da pesquisa sobre o Alzheimer à metáfora do esquecimento político
O ponto de partida da pesquisa foi a doença de Alzheimer. Um dado publicado em revista sobre o povoado de Angostura, na Colômbia despertou a curiosidade do grupo. Lá, mais de 12% dos cerca de 12 mil habitantes apresentam uma mutação genética que leva a um tipo raro e precoce da doença. Durante vários meses, os atores Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hison e Renato Ferrancini visitaram a ala neurológica do Hospital das Clínicas da UNICAMP. Lá, conversaram com especialistas, familiares e pacientes com demência. Era 2018, “época em que o Brasil mergulhava num momento de apagamento histórico, obscurantismo e irracionalidades políticas“, contextualiza Renato Ferrancini.
O grupo, então, expandiu a patologia para o campo social. Ao tratar o Alzheimer mais como metáfora que como doença, os artistas passaram a investigar o esquecimento por opção. Aquelas sobras que queremos deixar quietas, as memórias que machucam e preferimos não tocar. Vasculharam, ainda, além do esquecimento provocado pela doença, o apagamento da memória como projeto político: algo que se reflete na irracionalidade política do País.
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Informações KINTSUGI, 100 memórias
Local: Teatro do Centro Cultural do Banco do Brasil, SCES, Trecho 02, Lote 22
Datas e horários: de 4 a 14 de junho, quinta a sábado às 20h; domingo às 18h (na semana de jogos da Copa, a sessão de sábado acontecerá excepcionalmente na quarta-feira, 10/6, às 20h)
Duração: 120 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Ingressos: Compre Aqui




