Exposição individual deste artista trans do Distrito Federal questiona o horror à morte e convida o público a renascer pela aceitação do fim.
A galeria A Pilastra abre suas portas para receber a exposição Do Pó ao Pó, de Romulo Barros. A curadoria é coletiva e assinada por Belo e Bizarro, Júlia Teodoro, Madá Granja, Ness e Tahak Meneguzzo. A mostra reúne um conjunto de obras que explora os ciclos de morte e renascimento, a memória de narrativas marginais e a morte não como fim, mas processo de transformação. Natural do interior de Minas Gerais, numa região marcada pelo artesanato, agricultura e cultura da invenção, o artista carrega em sua prática a memória de fazeres manuais.
A produção de Romulo nasce do afeto e do vínculo com o mundo, despreendendo-se do corpo para existir como transmídia. Escultura, instalação, pintura, fotografia, gravura e outras materialidades são utilizadas como dispositivos simbólicos. Elas materializam uma atmosfera ritualística e articulam o já existente no mundo em expressão poético alquímica. Na mostra, o artista reinventa simbolismos e constrói uma poética visual que atravessa o abjeto e o divino, o erótico e o fúnebre, o visceral e o delicado. Num país que há mais de 17 anos lidera o assassinato de pessoas trans, a fala de um artista da comunidade sobre a morte, não como negação, mas como aceitação e aprendizado, é um ato político e existencial.
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O corpo de uma perspectiva escatológica
“Não nos traz respostas fáceis. A obra de Romulo é poslissêmica. Ao mesmo tempo que toca em temas como corpo de um ponto de vista escatológico, as obras evocam um erotismo. São tanto sombrias e fúnebres quanto produzem um deslumbramento divinal. Falam simultaneamente sobre afeto e violência. Ela quebra todas as dualidades e despedaça as barreiras frágeis que dividem e domesticam o mundo. É um trabalho tão visceral quão delicado, melancólico e celebrativo, simples e complexo, erótico e abjeto. Está além da linguagem, é inexplicável e por isto comporta intermináveis significados“, destaca o coletivo curatorial.
Matéria, signo e corpo: a tridimensionalidade como linguagem
A pesquisa do artista se materializa numa mistura de linguagens, transitando entre pintura, escultura, fotografia e instalação. Deste modo, costura os temas com uma pluralidade de materiais e técnicas que dão carne ao conceito. Entre os trabalhos tridimensionais, “Fissura” se destaca. Nela o tecido adquire propriedades escultóricas ao dar forma a um monte de feijões. Já em “Pedrada“, o processo de escultura e assemblagem evidencia a materialidade bruta do fazer artístico. Em diversas obras de parede, como “SOM SOM SOM“, “A Gota d’Água“, “Seta” e “Elos Entrelaçados” Romulo Barros incorpora elementos tridimensionais em alto ou baixo relevo. Assim, borra a fronteira entre o plano e o volume.
A pintura, por sua vez, ganha densidade com o uso de materiais específicos, como cimento, sangue e veludo. Enquanto a presença de elementos gráficos, setas, cruzes e círculos, confere à obra uma dimensão simbólica e ritualística. A série fotográfica, composta por “Intervenção” e “Olhos que a Terra Há de Comer“, completa este universo visual com um olhar que documenta e também performa a memória.
O horror à morte em questão
A exposição parte de uma reflexão central: o horror à morte é um dos pilares do pensamento eurocristão-monoteísta. É o que aponta o pensador Nego Bispo em “A Terra Dá, A Terra Quer“. Ideias como pureza, higiene, segurança, isolamento, hierarquia e controle estão fundamentadas numa negação radical da morte e numa afirmação da vida. Segundo o artista, estes conceitos aprisionam o corpo e o pensamento.
Na contramão deste dualismo, Barros propõe uma aproximação íntima com a morte. Não para temê-la, mas para aprender com ela. A obra convida a renascer, justamente por permitir encarar o fim como parte indissociável da existência. Esta abordagem torna “Do Pó ao Pó” uma experiência estética e filosófica rara no circuito cultural brasileiro, especialmente por vir de uma pessoa trans.
Informações “Do Pó ao Pó“
Local: Galeria A Pilastra, QE 40, Rua 09, Lote 08, Guará II
Data: abertura 30 de junho, exposição de 1º de julho a 15 de agosto • terça a domingo – 9h às 21h
Classificação Indicativa: Livre
Entrada franca




